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O MEU SENTIMENTO É O DE UM GARIMPEIRO, QUE BUSCA DIAMANTES, E QUANDO ENCONTRA NÃO CONSEGUE GUARDAR PARA SI.

17/04/2009

FRASES DA EDUCAÇÃO 170409

"há três caminhos para a infelicidade:
não ensinar o que se sabe,
não praticar o que se ensina,
não perguntar o que se ignora".

16/04/2009

SÉCULO XXI A ERA DA EDUCAÇÃO

Não se creia tratar-se de uma obsessão o regresso ao tema. Da primeira vez, foi o olhar do Marcos que me suscitou uma reflexão sobre o ritual da "passagem de ano". Agora, serei reincidente porque, mais que divagar sobre o tempo e a sua medida, pretendo evocar uma previsão lida algures.
O seu autor profetizava que "a idade da Educação" chegaria em meados do século XXI.

Como vemos, não é em vão que alimentamos a esperança. Só custará aceitar que a minha geração já por cá não ande, nesse tempo em que a Educação será, finalmente, encarada como assunto sério. O tempo! Sempre o tempo! À escala do cosmos, o tempo de passar não é mais que um rasto de vaga-lume, ou estrela cadente. E mesmo que pensemos que, quanto mais efémeras, mais belas são as vidas, a poesia de um precoce perecer não oculta uma trágica realidade: até meados deste século, ainda serão muitas as gerações a quem será negada a Educação que os seres humanos mais jovens merecem e que é possível, se, já hoje, quisermos que seja.

Escrever sobre o ofício de educar é sempre um exercício precário. Por mais que o desejo desenhe possíveis futuros, quando escrevo para a Alice, ou para o Marcos, estou a escrever para os filhos dos filhos dos nossos filhos.
Ser esperançoso também é isto: escrever para os netos, na apaziguadora certeza de que eles serão os nossos olhos e as nossas mãos, quando os seus filhos forem, finalmente, as crianças felizes e sábias que eu desejaria todas as crianças hoje fossem.

O que nos resta como deliberação é o primeiro passo de cada dia. É acolher cada afago do destino como primeiro e derradeiro. Nada mais. E encarar a fealdade dos dias como possibilidade do belo. Senão, como conseguiríamos suportar desmandos engendrados pelos sistemas educativos que ainda temos? Mas a paciência já não é virtude bastante. É preciso mais: não esperar. E não me move apenas o baixo rendimento académico dos alunos, bem expresso e documentado em recentes estudos. Quem conseguirá explicar porque, séculos volvidos sobre Copérnico e Leonardo da Vinci, metade da população dos Estados Unidos ainda creia que é o Sol que gira em volta da Terra? Como poderemos suportar a ideia de que uma professora acredite que Deus habita a Lua e que, por essa razão, advirta os seus alunos de que os homens nunca poderiam lá ter estado, e que os astronautas eram bonecos animados? E quase nos faz morrer de desgosto o estudo que revelou que metade das crianças japonesas nunca viram um amanhecer ou um pôr-do-sol.

Disse Kalil Gibran, "Vivemos somente para descobrir a beleza. Tudo o mais é uma forma de espera". Foi-me dado viver num tempo de espera. A Alice, o Marcos, outras crianças, e adultos que não esqueceram as crianças que foram, são quem me guia na descoberta de beleza. Em todas as gerações há seres avisados, que não se deixam corroer pelos ácidos de tempos sombrios, seres que arejam instituições, abrindo janelas por onde penetram ventos de mudança. Nas apáticas escolas que ainda vamos tendo (e merecendo?), a "Idade da Educação" já acontece, em espaços intersticiais, apenas acessíveis a olhares que se não deixaram corromper. Todos os dias me chegam notícias de discretos prodígios. No segredo das suas salas, há professores que não esperam, que recriam.

Pedagogia é arte. O ofício do educador é meticuloso, trabalho de precisão, como o é o dos ourives. Mas um trabalho que não admite o erro, porque uma criança é um bem mais precioso que o ouro. Se o educador se recusar a reflectir sobre o seu ofício, se ousar não o recriar - o que seria de esperar de um trabalhador intelectual - que se abstenha, no mínimo, de se aventurar em modas. Continue fazendo o que uma tradição sem nexo e uma cultura profissional falida lhe ordenam que faça. A não-directividade ingénua, o voluntarismo, o improviso são tão maléficos como o conservadorismo pedagógico que leva à reprodução de práticas escolares obsoletas, nos tempos de espera.

Alivia esta espera o saber que a Idade da Educação chegará no tempo dos filhos dos filhos dos nossos filhos. Não será tarde demais. O Abée Pierre diz-nos que "a vida não é mais que um pouco de tempo que nos é dado para, se quisermos, aprendermos a amar no sempre para além do tempo". Nisso acredito. E, se me é inacessível adivinhar como será o "tempo da Educação", imagino o que desejo que seja. Autorizo que a seta do olhar do sonho penetre num tempo além do tempo do mundo possível. Porfiarei no precário exercício de escrita, sem acalentar outra intenção que não a de dizer o que é preciso que seja dito, neste tempo de espera. Procuro desenvencilhar-me do fardo do ontem, certo de que o futuro não é mais que o "agora" que está por vir. Como o menino índio de uma fotografia do Sebastião Salgado (balançando numa rede, num gostoso fim de tarde sem relógio, nem agenda), entrarei em cada portal de Primavera, envolvido pelo ritmo das marés. Sentir-me-ei envelhecer, como uma árvore no jardim da escola, sem ganhar raízes, por saber que neste mundo nada é nosso. Mas sabendo, também, que tudo será possível no tempo dos filhos dos filhos dos nossos filhos.

JOSÉ PACHECO

15/04/2009

A BURCA


José Pacheco Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte.
Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
Meu ícone como referência de Educador.



Quem te avisa teu amigo é: "Será conveniente que contornes alguns temas, para não teres amargos de boca.
Há assuntos interditos. Por exemplo, a religião..."
Não poderia ficar indiferente, contornar o assunto, se o pai do Nuno explicou a razão da transferência do filho para a minha escola: "Tirei o meu filho daquela escola porque ele sofria muita humilhação só por ser uma "criança adventista".
Algo me feriu o ouvido: o que seria uma "criança adventista"?
Acaso haverá "crianças católicas", "crianças islamitas", "crianças socialistas"?
Ou apenas haverá "crianças"?
Comentei o caso com professores.
Todos se denominavam "católicos não-praticantes", todos haviam baptizado os filhos e feito a festa da comunhão solene.
Todos inscreveram os filhos na disciplina de Religião e Moral Católica, nas escolas públicas que frequentavam.
Quis saber o porquê da incoerência de católicos que "não praticavam".
Todos sorriram e só um se pronunciou:
"Quero que o meu filho seja uma criança "católica".
E, se a catequese católica não lhe fizer bem, também não faz mal!".
Faz mal, muito mal, que eu sei por experiência própria.
Fui aluno de uma catequista fanática.
Fui aluno numa escola do Portugal de Salazar com o catolicismo mais conservador por religião de Estado, apoiando a Ditadura e as perseguições aos dissidentes.
Na minha sala de aula, ao lado da fotografia do ditador, havia um crucifixo. O meu colega de mesa era "protestante", mas fingia ser católico.
Descoberto, foi rudemente segregado pelos fundamentalistas da época.
"Fazer parte ou não do corpo de Cristo não é uma questão de rótulo, mas de comportamento", como escreveu Jean-Yves Leloup.
Se assim não for, para além do poder castrador psicológico e sexual, a sociedade exercerá sobre as crianças um pavloviano condicionamento espiritual.
Os mesmos que rotulam crianças de "adventistas", "católicas", ou qualquer outro adjectivo, também são lestos a afirmar a normalidade dos seus infantes: "É uma "criança normal".
E evocam passagens da Bíblia para justificar a nazi rotulação.
Visitei uma escola, pouco antes do Natal. E reagi à intervenção de uma professora, que considerei reflexo de subdesenvolvimento espiritual.
"Daqui a alguns dias, todo o mundo estará a celebrar o Natal"
"Olhe que não, minha senhora. E, então, os budistas, por exemplo?"
"Os budistas também estão" – insistiu a professora.
"Não estão, não! Eles não são cristãos. Não celebram o nascimento de Cristo".
"Pode lá ser!" – exclamou, visivelmente irritada.
"Mas é – acrescentei – E há também os hindus, os muçulmanos, os..."
"Pode lá ser assim como você diz!" – contestou a professora – "Os muçulmanos, que são aqueles que andam para aí a matar gente, até pode ser.
Mas os outros, não!"
Para não estragar o festivo ambiente, optei por não ripostar.
Argumentar para quê?
Há gente assim, crentes católicos ou de outras crenças que crêem que a sua igreja é a única e verdadeira.
E que todo o mundo celebra o Natal. Eu até conheci uma professora que estava crente de que o Natal era sempre celebrado ao Domingo... Nada me move contra qualquer credo.
Trabalho com educadores católicos, protestantes, messiânicos, budistas, espíritas... Mas observo, com preocupação, que a abertura estreita da burca mental de certos crentes apenas os deixa ver o que é permitido num horizonte encurtado pelo fanatismo.

JOSÉ PACHECO

Para nosso conhecimento
A burqa ou burca é uma versão radical do xador, trata-se de uma veste feminina que cobre todo o corpo, até o rosto e os olhos.
É usada pelas mulheres do Afeganistão.

14/04/2009

A MELHOR IDADE?

JOSÉ PACHECO - Especialista em Música e em Leitura e Escrita, é mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto
Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
MEU ÍCONE COMO REFERÊNCIA DE EDUCADOR.



Pensei que estivessem usando a expressão para (cruelmente) designar aquilo que, até há bem pouco tempo, designava, em linguagem pura e dura, a "terceira idade".
Enganei-me. Em qualquer debate, a pergunta insistente passou a ser: "Qual a melhor idade para aprender a ler? Os 6, ou os 7 anos?"

Talvez ainda sejam organizados congressos para se encontrar resposta para uma pergunta que aporta um pressuposto - o de que todos deverão fazer o mesmo, aprender o mesmo, no mesmo momento: "Qual é a melhor idade para aprender a ler?" Perguntas sem sentido, pois conheço crianças de 4 anos aptas para a alfabetização e jovens de 10 anos sem condições para aprender a ler.

Sempre as mesmas inúteis discussões. Sempre as mesmas abstracções. Quando se refere a palavra "aluno", de que aluno (em concreto) estaremos a falar? Do João? Da Maria? De nenhum... A melhor idade é a idade de cada qual.

O processo de letramento é um processo de inclusão. Aprender a ler é desejo e esforço. A linguagem é produção social. E não pode ser ensinada como se todos fossem um só. A linguagem é aprendida socialmente, nas interacções verbais, como nos avisam Baktin e Freire. Ao ensinar a ler como se todos fossem um só, a escola não promove o uso da leitura e da escrita como meio de comunicar e de assumir a cidadania.

Quando uma professora quis ensinar a letra fê, recorreu a uma daquelas frases de antologia, que só traduzem desprezo pela inteligência e criatividade da infância. Leu para toda a turma, ao mesmo tempo, do mesmo modo: "A mãe afia a faca."

"A Fia sou eu! - exclamou uma aluna.

"Não é nada disso, Jéssica! Eu disse afia! Afia é como... amola. Percebeste?"

"A mola?" - perguntou a aluna, com cara de nada entender.

"Sim. Amola! Já vi que compreendeste!" - concluiu a mestra.

Por este fonético equívoco e por outros é que alguém já disse que a linguagem é font_tage de mal-entendidos. Quando visitava uma escola, perguntei a um pequenito: "Estás a ler essa revista?"

"Não. Eu estou só vendo e cortando. Não estou lendo!"

Sábio moço! Tinha consciência de que cortar de uma revista palavras "que tivessem o ca e o co", como mandara fazer a professora, não era o mesmo que ler. Nunca lera Boff, mas sabia que cada leitor e cada escritor é co-autor, que cada leitor lê e relê com os olhos que tem, porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita.

O que está nos Planos Curriculares não logrou entrar na maioria das salas de aula. Uma pesquisa recente diz-nos que metade dos professores nem sequer leu o que lá está escrito. Talvez por isso, se deixem influenciar por quem quer rever um documento que nunca passou à prática. Talvez por isso, se deixem envolver em debates estéreis como os que visam definir "qual é a melhor idade para começar o fundamental".

Talvez por isso, os cursos remediativos de alfabetização de adultos cresçam exponencialmente. Já adultos, os alunos sabem porque querem aprender a ler: "Eu vim aprender a ler, para poder ler os bilhetes que estão nos bolsos do casaco do meu marido". Mas também os mais pequenos nos podem dar lições de pedagogia. Como a Luciana: "Ler é saber em silêncio."

Apesar das evidências, sei que os professores não são desistentes: "Os nossos alunos, na sua grande maioria, repudiam a escola, querem fugir dela. A nossa escola sufoca, não desenvolve a cidadania, mas nós acreditamos numa outra escola, e vamos lutar para que ela exista."

13/04/2009

HINO NACIONAL BRASILEIRO - LIBRAS

O Hino Nacional já é majestoso por natureza.
Na interpretação de libras com Rebeca Nemer é de arrepiar.
Um vídeo lindo.

12/04/2009

POESIA DA VIDA

O poeta adquiriu um pedaço de terra em plena serra.
Um lugar para sonhar, fazer poesia, escrever, inebriar a alma.
Não pretendeu mexer em nada. Deus, afinal, fizera tudo tão bonito.
O regato de água cristalina descendo do alto da serra, por entre pedras, formando cachoeiras e remansos gelados.
Samambaias, avencas, brincos de princesa em profusão.
Campos verdes, bordados de flores minúsculas.
Também enormes araucárias, com sua casca rugosa, onde crescem bromélias.
Um pedaço do céu cheio de beleza e vida. Mas, nesse belo lugar, há um morro de terra ruim.
Tão ruim que até o capim protesta e não vinga. O poeta olhou para aquela terra, aparentemente imprestável, e resolveu dar uma mãozinha para a natureza. Pensou que poderia plantar araucárias ali.
Uma mata cheia de pinheiros, com suas copas altivas, braços erguidos ao céu, como a pedir bênçãos. Maravilha! Começou a sonhar.
Como não entende muito dessas coisas, foi pedir auxílio. Consultou as pessoas do lugar. Ninguém aprovou sua idéia. Imagine! Plantar araucárias. Elas levam muito tempo para crescer.
Como o poeta já não é tão jovem, disseram-lhe que, com certeza, ele nem chegaria a ver os pinheiros crescidos. Além do mais, não se pode cortar araucária. Ela é protegida por lei.
Cortar uma árvore dessas é crime. E para que plantar árvores se não podem ser cortadas? Afinal, somente cortadas é que elas valem dinheiro, podem ser vendidas. Aconselharam o poeta a plantar eucaliptos.
Eles crescem rápido. Dão lucro a partir do terceiro ano.
O poeta voltou para sua casa. Ninguém o tinha entendido.
Descobriu que ele e os seus vizinhos eram de mundos diferentes. Ele era um ser da floresta, sem pressa, como as sementes colocadas no solo.
Os seus vizinhos pensavam em coisas rápidas, em dinheiro no banco, em lucros.
Ele desejava desfrutar o espetáculo colorido e perfumado da floresta exuberante. Ver, cheirar. É tudo que queria. Eles só tinham em mente o comércio, os negócios. Por isso um eucalipto que pode ser cortado em três anos é muito mais importante do que uma araucária que não pode ser cortada nem em 50 anos.
E o poeta ficou a pensar como é a cabeça dos homens que só pensam no lucro.
Perderam o sentido e a beleza da vida.
Recordou dos que matam beija-flores e sabiás para os salgar e vender, a fim de serem consumidos como tira-gosto, em meio a risadas e bebidas.
São os que olham para os pingüins do ártico e pensam em transformá-los em ração para cachorro. Que olham para uma imensa floresta de sequóias e acham um terrível desperdício aquela propriedade habitada somente por árvores.
No seu conceito de lucro, muito melhor seria queimar a floresta toda e transformá-la em condomínio luxuoso.
Por tudo isso, o poeta resolveu mesmo plantar araucárias. Se ele chegará a vê-las crescidas ou não, não importa. Importa que ele semeou esperança e vida que poderão alegrar outros olhos e corações, no futuro.
*** Onde estiver o seu tesouro, ensinou Jesus, aí estará seu coração. Seu coração está na vida, na beleza ou no lucro?
Você deseja uma terra pródiga de belezas onde seus filhos possam viver? Ou simplesmente um lugar para usufruir todo o possível, rápida e velozmente?
Você decide se plantará araucárias ou eucaliptos na terra do seu coração...

do livro Um céu numa flor silvestre, de Rubem Alves, ed. Verus.

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