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O MEU SENTIMENTO É O DE UM GARIMPEIRO, QUE BUSCA DIAMANTES, E QUANDO ENCONTRA NÃO CONSEGUE GUARDAR PARA SI.

25/04/2009

A ESCOLA DE MEUS SONHOS

A escola da Ponte nunca poderaá ser repetida ou copiada, pois advem de uma realidade, tem a sua história. Mas sem dúvida é um modelo, a maravilhosa idéia de que a educação pode ser diferente das Educação dos dias atuais.
No desejo de uma EDUCAÇÃO RENOVADORA NO SÉCULO XXI, SÉCULO DA EDUCAÇÃO, bom para os que têm ALMA DE EDUCADOR, ter essa referencia de escola IDEAL>


Trecho do documentário "Fazer a Ponte", sobre a escola da Vila das Aves, em Portugal, que realizou na prática a transformação de paradigmas educacionais considerados ultrapassados por tantos educadores e educandos. Com cenas do trabalho realizado na escola, depoimentos de pais, professores, ex-alunos e do Prof. José Pacheco, coordenador da escola na época.

Escola Básica nº 1 da Ponte e Instituto de Inovação Educacional - 2000
Site da escola: http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt/index...


24/04/2009

SÍNDROME DE ASPERGER

Pessoas com esse distúrbio possuem as dificuldades qualitativas na comunicação, interação social, e a imaginação (tríade), e consequentemente apresentam algumas dificuldades comportamentais, como no autismo. Porém, não apresentam qualquer atraso significativo de desenvolvimento de fala ou cognitivo, podendo até mesmo passar a vida toda sendo apenas consideradas pessoas "estranhas" para os padrões típicos de comportamento.

Embora essas pessoas não tenham um atraso significativo no desenvolvimento cognitivo, é importante que a criança receba educação especializada o mais cedo possível para auxiliar o indivído a contornar os problemas de comportamento que apresenta e também para ajudar a direcionar os campos de interesses e de estudo da criança.

Existem diversos casos de pessoas que possivelmente tinham a Síndrome de Asperger e que por não ter tratamento adequado não tiveram suas capacidades de raciocínio plenamente desenvolvidas, ficando até, em alguns casos, completamente isoladas do mundo.




TRIADE

Desvios qualitativos da comunicação:

Caracterizada pela dificuldade em utilizar com sentido todos os aspectos da comunicação verbal e não verbal. Isto inclui gestos, expressões faciais, linguagem corporal, ritmo e modulação na linguagem verbal.

Portanto, dentro de grande variação possível na severidade do autismo, poderemos encontrar uma criança sem linguagem verbal e com dificuldades na comunicação por qualquer outra via - isto inclui ausência de uso de gestos ou um uso muito precário dos mesmos; ausênsia de expressão facial ou expressão facial incompreensível para os outros e assim por diante - como podemos, igualmente encontrar crianças que apresentam linguagem verbal, porém esta é repetitiva e não comunicativa.

Muitas das crianças que apresentam linguagem verbal repetem simplesmente o que lhes foi dito. Este fenômeno é conhecido com ecolalia imediata. Outras crianças repetem frases ouvidas há horas, ou até mesmo dias antes (ecolalia tardia).

É comum que crianças autistas inteligentes repitam frases ouvidas anteriormente e de forma perfeitamente adequada ao contexto, embora, geralmente nestes casos, o tom de voz soe estrando e pedante.

Desvios qualitativos na sociabilização

Este é o ponto crucial no autismo e o mais fácil de gerar falsas interpretações. Significa a dificuldade em relacionar-se com os outros, a incapacidade de compartilhar sentimentos, gostos e emoções e a dificuldade na discriminação entre diferentes pessoas.

Muitas vezes a criança autista aparenta ser muito afetiva, por aproximar-se das pessoas abraçando-as e mexendo, por exemplo, em seu cabelo ou mesmo beijando-as quando na verdade ela adota indiscriminadamente esta postura, sem diferenciar pessoas, lugares ou momentos. Esta aproximação usualmente segue um padrão repetitivo e não contém nenhum tipo de troca ou compartilhamento.

A dificuldade de sociabilização, que faz com que a pessoa autista tenha um pobre consciência da outra pessoa, é responsável, em muitos casos, pela falta ou diminuição da capacidade de imitar, que é uns dos pré-requisitos crucias para o aprendizado, e também pela dificuldade de se colocar no lugar de outro e de compreender os fatos a partir da perspectiva do outro.

Desvios qualitativos na imaginação

Se caracteriza por rigidez e inflexibilidade e se estende às várias áreas do pensamento, linguagem e comportamento da criança. Isto pode ser exemplificado por comportamentos obsessivos e ritualísticos, compreensão literal da linguagem, falta de aceitação das mudanças e dificuldades em processos criativos.

Esta dificuldade pode ser percebida por uma forma de brincar desprovida de criatividade e pela exploração peculiar de objetos e brinquedos. Uma criança autista pode passar horas a fio explorando a textura de um brinquedo. Em crianças autistas com a inteligência mais desenvolvida, pode-se perceber a fixação em determinados assuntos, na maioria dos casos incomuns em crianças da mesma idade , como calendários ou animais pré-históricos, o que é confundido às vezes com nível de inteligência superior.

As mudanças de rotina, como de casa, dos móveis, ou até mesmo de percurso, costumam perturbar bastante algums dessas criança.

DISLEXIAS - PROFESSOR JOSÉ PACHECO

Prof. José Pacheco

Volto ao questionável acto de rotular e tratar alunos como “deficientes”. Trago-vos dois episódios, que podem ilustrar uma realidade oculta: há fenómenos de incomunicabilidade nas nossas escolas, cuja responsabilidade não deve ser imputada somente às escolas.
A Bárbara é uma aluna com dislexia. A professora “especial” passa pela sala, duas vezes por semana. Mas já confessou que (afinal) “não é especialista em dislexias (sic) e que, portanto, pouco pode ajudar”… A professora dita “regular” diz que “faz o que pode, mas que não se espere milagres, porque com dezanove alunos mais uma “disléxica” na sala, o tempo não chega para tudo”…
A meio da manhã, diz a professora para a “disléxica”: “Vais ficar sem recreio, porque eu não consigo ler o texto que escreveste!”. Resposta pronta da Bárbara: “Tu não consegues ler, mas eu consigo!” A Bárbara é disléxica, mas não é parva.
A dislexia existe! Há necessidade de identificar a dislexia a tempo, de modo que não se converta, definitivamente, num obstáculo ao sucesso e à realização pessoal. E, muito mais que identificar, é imperioso que um especialista, no seio de uma equipa, dê resposta às Bárbaras. Porém, há casos e casos, e bem diferente é o caso do Tito.
O Titinho (como a extremosa mamã lhe chamava) chegou à escola acompanhado de um processo com cinco centímetros de altura. Eram relatórios de psicólogos, mais os dos pedopsiquiatras, mais os relatórios das professoras de educação especial, mais os dos médicos… Veredicto: “disléxico”. Tratamento: dois anos sob orientação de uma professora “especial” mais três anos a pastar fichas, no fundo da sala, que a professora regular não era entendida em dislexias.
Uma semana de ociosidade depois, o professor aproximou-se do moço:
Então?... Desde que chegaste, ainda não fizeste nada.
O aluno não estava diagnosticado de autista, mas não deu troco. O mestre insistiu:
E posso saber porquê?
O moço fez ouvidos de mercador.
Não me ouviste? Posso saber porquê, Tito?
Aquele mocetão quase a fazer doze anos de idade, enfim, reagiu:
Eu sou Titinho! Não sou Tito! Você não sabe?
Está bem, Tito. Mas diz-me por que não te vejo trabalhar como os outros meninos.
Você não sabe?
Não, não sei.
Eu, na outra escola, também não fazia nada.
Ai não?...
Não. Só quando a setora do especial lá ia é que eu fazia uns joguinhos.
Ai sim?
É. Está a ver? Eu não fazia nada. E você não me pode obrigar porque…
Esgotada a paciência, o professor interrompeu-o:
Porque é que não fazias nada, na outra escola?
Você não sabe?
Já te disse que não.
É que eu sou disléxico.
Ai, és disléxico? Eu sou Luís! E, agora, vais pegar nesta folhinha e vais fazer o que o teu grupo tem no plano para tu fazeres.
Ficou de boca aberta e sem tempo para retorquir. O Tito fez o trabalho que o grupo o ajudou a fazer (a pressão social justa e fraterna resulta sempre…), apesar de “trocar umas letrinhas”, como depois comentou, pedindo desculpa pelo que não devia. Perante a afável autoridade do professor e a persuasão exercida pelos colegas do grupo, restava ao Titoo escolher entre duas atitudes: ou fazia o trabalho, ou fazia o trabalho… Optou por fazer o trabalho. Qualquer outro “disléxico” inteligente optaria por essa hipótese.
Imaginava o professor Luís o que se estaria a passar naquela cabecinha: “então este professor não saberá o que é um disléxico?” É claro que o professor sabia. Tanto sabia, que o Titinho – entretanto promovido a Tito pelo grupo – foi fazendo exercícios que o ajudaram a ultrapassar algumas dificuldades. Porém, não todas…
O Tito pendurou o seu casaco, atirando ao chão casacos de colegas. O professor chamou-lhe a atenção. O “disléxico” respondeu: Não são meus!... Pois não eram, mas o Tito apanhou os casacos do chão e pendurou-os nos respectivos cabides.
A mãe do Tito chegou, ao final do dia. Retirou do cabide o casaco do filho, provocando a queda de outro casaco, que estava pendurado num cabide adjacente. O professor fitou a senhora, insistentemente. Apercebendo-se da recriminação no olhar do professor, a senhora exclamou: Não fui eu!....
Bater-lhe o professor Luís não podia, embora vontade não lhe faltasse... Afastou-se, sem dizer palavra, reflectindo sobre as dislexias familiares, que fazem a infelicidade de muitos Titinhos.

23/04/2009

SAUDADE SEMPRE

Saudade é a inclinação da alma na direção das coisas amadas que se perderam
e continuam presentes na dor. Saudade é a presença de uma ausência.
Ela dói, lateja, é assim como uma fisgada no membro que já perdi..

É preciso preparar a Alma com antecedência para o evento.
O tempo da "comemoração" se aproxima. Comemorar quer dizer "trazer de novo à memória".
Para que se cumpra o ditado popular que diz "recordar é viver".

Dentre todos os seres vivos os seres humanos são os únicos que se alimentam do passado.
Para a saudade não existe cura. Tudo que podemos dar a ela como consolo é inútil.

Há um esquecer que é uma felicidade. É como mar que limpa e alisa a areia que os humanos haviam pisado
na véspera sem pedir desculpas.

Já tive essa estranha sensação bem cedo na praia diante da areia lisa,
um sentimento de culpa por machucá-la com meus pés... O esquecimento alisa a areia.

Tudo fica puro, como se fosse a primeira vez. Isso do lado de fora.
Mas lá no fundo, onde mora a saudade, não há esquecimento.

22/04/2009

O DIA DA TERRA


Pense no seu organismo saudável: existe um equilíbrio perfeito entre todos os órgãos, que se auto-regulam e se complementam. Quando é atingido por alguma doença, o corpo tem seus próprios mecanismos de defesa.

Um espirro pode ser uma forma de se livrar de partículas indesejadas, antes que elas penetrem nosso pulmão; uma febre é um sinal de alerta de que algo não vai bem e até uma inflamação é uma estratégia do nosso sistema imunológico para expulsar um corpo estranho. O fato é que tudo será feito para preservar a integridade desse organismo e evitar a sua morte.

Com a Terra, também é mais ou menos assim que acontece. Pelo menos, baseando-se na Hipótese de Gaia, criada por James Lovelock, cientista inglês que trabalhou na NASA na década de 60 e defende que nosso planeta é um organismo vivo capaz de manter seu próprio funcionamento.

Segundo a teoria, ambiente e seres vivos interagem entre si e se influenciam mutuamente. Assim, qualquer alteração na normalidade do sistema implica em ajustes pra que o equilíbrio seja reestabelecido.

E o ser humano tem causado alterações no planeta desde que surgiu por aqui: a Revolução Industrial e a emissão de carbono para a atmosfera – que vem crescendo desde então e provocando aquecimento global; o crescimento acelerado da população e o consumo exagerado dos recursos disponíveis na natureza; a poluição das águas, dos solos e do ar e a produção de grandes quantidades de lixo são exemplos da ação maléfica do homem sobre esse grande ser vivo.

Os cientistas têm nos considerado um câncer no planeta – já que somos parte integrante dele, assim como as células cancerosas também constituem nosso corpo.

Por isso mesmo, talvez esse corpo maior que é a Terra tome suas providências regulatórias e acabe nos eliminando, como uma forma de garantir sua sobrevivência.

O próprio Lovelock acredita que a situação da Terra em função do aquecimento global vai ser tão complicada nas próximas décadas que, até o final do século, 80% da população humana estará extinta. E os outros 20% vão conviver com falta de água e de comida.

Segundo o cientista, o planeta vai conseguir se curar dos danos sofridos – como fez há 55 milhões de anos, quando também passou por um grande aumento de temperatura – mas essa recuperação deve levar cerca de 200 mil anos para se concluir, tempo que nós, humanos, não somos capazes de esperar.

Hoje, 22 de abril, em quase todo o mundo, comemora-se o Dia da Terra (ou Earth Day). Esta é uma boa data para se pensar: queremos mesmo que a espécie humana pague o preço de sua própria extinção para que tudo volte ao normal por aqui?

Este vídeo do WWF ilustra bem a condição básica de Gaia: tudo o que faz parte dela está interligado e as consequências dos atos de cada ser, inevitavelmente, voltam para seus causadores.



PEQUENO PRÍNCIPE


José Pacheco Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte.
Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
Meu ícone como referência de Educador.

Mais de quatrocentos voluntários e apoios de empresas e universidades ajudam a manter um projecto que merece ser dado a conhecer.
Sempre que posso, volto àquele hospital de crianças, porque sempre aprendo algo por lá.
A professora está sentada ao lado da cama.
Lê um livro para uma criança recentemente operada.
Enquanto os enfermeiros mudam o penso, a professora afaga os cabelos da chorosa criança.
Cadê Aline? – pergunta a Maria.
Ficou boa e foi embora! – responde, em coro, a enfermaria.
Como é possível tão pouco espaço conter tanta humanidade?
Respira-se carinho.
Todos se conhecem.
Todos são chamados pelo nome.
Quem é o médico? Quem é o voluntário?
Quem é o educador?...
Chucran! – é assim que eu escuto – é o mesmo que "obrigado", mas em libanês.
No hospital, o Rafael descobre as suas raízes culturais.
A mãe, de véu cobrindo os cabelos e o rosto, estuda a história da terra onde nasceram.
A professora ensina português ao Rafael. A mãe do Rafael ensina libanês à professora.
Pais de crianças em internamento prolongado descobrem o valor da leitura partilhada. Ao jogar à matemática com o filho, aquele pai compreendeu por que razão aprendeu o "e vai um", quando andou na escola.
Num recanto entre duas enfermarias, outro pai ajuda o seu filho a preparar uma pintura, enquanto um voluntário muda a garrafa do soro.
Durante o internamento do seu filho, uma mãe visita, pela primeira vez, um museu. E faz um passeio interno, para conhecer a lavandaria do hospital.
Admira o trabalho que lá se faz.
O Cláudio atende o celular.
A mãe de uma criança, numa outra enfermaria, pergunta quando chegariam lá as professoras.
Conclui a ligação: Porque demoram? Também queremos aprender!
Jogando, de modo inteligente, as crianças vão aprendendo o que lhes foi ensinado na escola, mas não havia sido aprendido.
No Pequeno Príncipe, são curadas as mazelas do corpo e as do espírito.
Uma voluntária, aluna de Pedagogia, comenta: Nós fomos ensinadas a aprender de um só jeito, como a nossa professora pensava que estava certo.
Aqui, nós também trabalhamos os conteúdos. Mas não com todas as crianças ao mesmo tempo. É quando é preciso e é possível.
Outra voluntária, professora, acrescenta: Eu já tinha visto este material pedagógico em escolas por onde passei.
Mas nunca o tinha utilizado.
O Luís tem 4 anos. Vive no hospital quase desde o dia em que nasceu.
Sofre de doença degenerativa.
Só conhece o mundo lá de fora através da janela da enfermaria e através do mundo que as professoras lhe descrevem. A sua melhor amiga contraiu pneumonia e faleceu.
O Luís quebra um silêncio de vários dias: Porque é que a Carol nunca mais vem brincar comigo?
A voluntária encosta o rosto do Luís no seu colo.
Um longo afago é a resposta.
E eu evoco o último capítulo do "Pequeno Príncipe": Agora já me consolei um pouco. Sei que voltou ao seu planeta; pois, ao raiar do dia, não lhe encontrei o corpo.
Não era um corpo tão pesado assim...
No Pequeno Príncipe, tão perto da morte, tão perto da vida.

20/04/2009

A LINGUA DAS MARIPOSAS

Ir a escola pela primeira vez é um grande desafio para uma criança.
Não importa a idade, independe do país e mesmo do contexto histórico no qual está inserida a criança. A superação da insegurança só acontece após alguns dias, depois de uma plena adaptação, através da qual o menino ou menina conheça seus colegas, compreenda a dinâmica do ambiente escolar e trave o necessário e primordial contato com seu professor.

Nesse aspecto, a figura do professor é definidora não apenas no sentido da ambientação.
Os mestres respondem pela própria paixão a ser despertada nos infantes.
Parte deles toda a energia vital que, necessariamente, contagia os alunos e faz com que eles não apenas se sintam bem na escola, mas também, que alimentem certa paixão pela aprendizagem, pelo conhecimento, pela pesquisa...

José Luiz Corda, cineasta espanhol, retratou com grande êxito, os primeiros passos do menino Moncho (Manuel Lozano), de sete anos, nessa grande aventura de ingressar na escola, através de seu filme “A Língua das Mariposas”.

A sensibilidade do filme de Corda nos remete a duas outras grandes obras recentes da filmografia européia, as produções italianas “A Vida é Bela”, de Roberto Begnini e “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore.
Além disso, a intensa relação que se define entre Moncho e seu velho professor Don Gregório (Fernando Fernán-Gomes) nos fazem lembrar das parcerias estabelecidas entre Giosué e Guido (de “A Vida é Bela”) e entre Totó e Alfredo (de Cinema Paradiso).

Entretanto, diferentemente daqueles filmes, “A Língua das Mariposas” tem como foco a relação professor-aluno.
Estabelece a imagem do professor humano, caloroso, próximo e paciente.
Nos mostra a atitude do profissional da educação como aquela do erudito, que lê, pesquisa, conversa regularmente com muitas pessoas e é admirado pela comunidade.


O filme nos mostra Don Gregório como uma figura impar dentro do contexto educacional da época retratada (o filme se passa no período brevemente anterior a Guerra Civil Espanhola), fica claro para o espectador que a atitude desse educador contrasta com posicionamentos mais fortes e autoritários dos demais professores da época (Antes de conhecer Don Gregório, o menino Moncho tem medo de ir a escola e fala em fugir para a América; receia que possa ser punido com severidade pelo futuro professor).

Além disso, a preocupação em ensinar e cativar as crianças não se restringe a demonstrar todo o conhecimento obtido a partir de leituras e pesquisas.

Don Gregório representa o educador íntegro, que se percebe como referência (e que, nem por isso, se envaidece) e que, ciente de suas responsabilidades a partir de então, se mostra sempre sereno, altivo e elegante.

Mais que teorias, ele ensina a seus alunos novas posturas perante o mundo, onde as pessoas devem se respeitar, ter sensibilidade e jamais abandonar seus ideais...


O Filme



Moncho (Manuel Lozano) tem apenas sete anos e se prepara para o maior desafio de sua vida. Está a apenas algumas horas de seu primeiro dia de aula.

Alertado por alguns meninos, ele acredita que o professor poderá castigá-lo ao menor erro. O menino pensa, inclusive, em fugir para a América, como alternativa a escola.

O que lhe espera, entretanto, é uma grande surpresa. Seu professor, Don Gregório (Fernando Fernán-Gomes), um senhor próximo da aposentadoria, jamais agiu agressivamente em relação a nenhum de seus alunos. Pessoa de fala mansa, de grande tranqüilidade e de postura elegante, apesar de toda a simplicidade, o professor garante sua credibilidade perante seus alunos a partir do conhecimento que possui e da calma com que resolve os pequenos problemas do cotidiano.

Moncho se apaixona pela escola e passa a se dedicar com grande vontade às tarefas e atividades propostas por Don Gregório. Encanta-se com as histórias contadas pelo velho mestre e se anima ainda mais quando algumas aulas são dadas ao ar livre. Paralelamente a suas realizações escolares, o menino acompanha os acontecimentos da vida cotidiana da pacata cidade onde vive.

Descobre o amor e se percebe no meio de um emaranhado de relações políticas e sociais (mesmo não entendendo exatamente o significado desses acontecimentos), numa época em que a Espanha ferve as vésperas de sua guerra civil. As turbulentas transformações pelas quais passava o país colocam o velho e honrado professor em situação delicada devido a seus posicionamentos políticos. Em quem deve acreditar Moncho?

Fortes emoções tornam “A Língua das Mariposas” filme obrigatório para todos aqueles que acreditam na vida e na educação.


Aos Professores


• Encantamento é a palavra definidora da relação estabelecida entre Don Gregório e seus alunos (especialmente Moncho). E como se dá essa mágica? Muitos professores me perguntam quando realizo workshops e palestras de que forma conseguimos cativar nossas crianças e adolescentes. Não há fórmulas prontas. Não há “receitas de bolos”. Essencialmente o que caracteriza um trabalho que encanta os estudantes é o amor do professor pelo trabalho que realiza, pelas crianças e jovens com os quais trabalha e pelo conhecimento.

• Outro aspecto relevante do sucesso de vários profissionais que conheço se refere à sensibilidade. Saber ouvir os estudantes quando necessário. Compreender seus problemas. Dar atenção sempre que requisitado. É claro que não podemos e nem devemos abrir mão de nossas demais responsabilidades como educadores. Continuaremos a trabalhar a história, a literatura, a matemática, as ciências e todo o conhecimento que nos cabe proporcionar a nossos alunos. Temos que adicionar a isso a educação das emoções, garantida pela presença, pelo estímulo constante, pela crença na capacidade de todos nossos alunos,...

• “A Língua das Mariposas” destaca outro aspecto muito relevante para o trabalho dos educadores, a necessidade da leitura, da pesquisa, da busca do conhecimento. Isso vale tanto para nossa própria formação quanto para o aperfeiçoamento de nossos estudantes. Temos que ler para saber ler. Temos que mostrar a nossos alunos que ler e pesquisar são essenciais para nosso crescimento, para nossa maturação e melhoria individual. Temos que fazê-los perceber que ler e pesquisar são (mais que necessidades) prazeres!

• Toda e qualquer forma de repressão política, ideológica, social ou cultural representa o que há de mais vil entre os seres humanos. O patrulhamento patrocinado pelo fascismo na Espanha (e em todos os países que, infelizmente, vivenciaram regimes totalitários) fez muitas vítimas. Seus crimes? Pensavam de forma diferenciada em relação ao regime dominante. Levantamentos e pesquisas acerca da Guerra Civil Espanhola e da ditadura fascista que se estabeleceu na Espanha podem ser aprofundados com o exame da obra “Guernica” de Pablo Picasso, com a leitura do clássico “Por quem os sinos dobram” de Ernest Hemingway (que era correspondente de guerra na Espanha na época da guerra) e pela comparação desses recursos (incluindo-se aí o próprio filme “A Língua das Mariposas”) com textos didáticos e paradidáticos.

Obs.: “Por quem os sinos dobram” foi transformado num ótimo filme (produzido em 1943), dirigido por Sam Wood e estrelado por Ingrid Bergman e Gary Cooper. Apesar disso, recomendo que inicialmente se faça a leitura do livro de Ernest Hemingway para que, depois se utilize o filme.

João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
A Língua das Mariposas
Educação e Integridade


Ficha Técnica

A Língua das Mariposas
(La Lengua de Las Mariposas)

País/Ano de produção: Espanha, 1999
Duração/Gênero: 96 min., Drama
Direção de José Luis Cuerda
Roteiro de Rafael Ascona, Manuel Rivas e José Luis Cuerda
Elenco: Fernando Fernán-Gomes, Manuel Lozano, Úxia Blanco, Gonzalo Uriarte,
Aléxis de los Santos, Jésus Castejón, Guillermo Toledo.

Links

http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=3625

http://parceiros.cineclick.com.br/cinemateca/ficha_filme.php?id_cine=10228

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