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06/01/2021

À AQUELES QUE EDUCAM


Augusto Cury

Na educação de nossos filhos
Todo exagero é negativo.
Responda-lhe, não o instrua.
Proteja-o, não o cubra.
Ajude-o, não o substitua.
Abrigue-o, não o esconda.
Ame-o, não o idolatre.
Acompanhe-o, não o leve.
Mostre-lhe o perigo, não o atemorize.
Inclua-o, não o isole.
Alimente suas esperanças, não as descarte.
Não exija que seja o melhor, peça-lhe para ser bom e dê exemplo.
Não o mime em demasia, rodeie-o de amor.
Não o mande estudar, prepare-lhe um clima de estudo.
Não fabrique um castelo para ele, vivam todos com naturalidade.
Não lhe ensine a ser, seja você como quer que ele seja.
Não lhe dedique a vida, vivam todos.
Lembre-se de que seu filho não o escuta, ele o olha.
E, finalmente, quando a gaiola do canário se quebrar, não compre outra...
Ensina-lhe a viver sem portas.

07/01/2018

O MELHOR DE NÓS - FERREIRA GULLAR


Sempre que me deparo com uma máquina, mesmo que seja um simples torno mecânico, fico impressionado com o acúmulo de conhecimento, experimentos e trabalho humanos que possibilitaram a sua fabricação.
E digo a mim mesmo: “Se dependesse de mim, esta máquina não teria sido feita”.
É verdade. De mim e todos os poetas, pintores, músicos, filósofos... que jamais seriam capazes – a exceção é Da Vinci – de pensar a realidade em termos práticos, técnicos, com o propósito de resolver problemas de vital importância para as pessoas. Se dependesse de nós, poetas, artistas, filósofos, a humanidade  ainda estaria na idade da pedra.
Faz algumas semanas, passei com o carro em cima de um buraco e uma das rodas empenou. Levei-o a uma oficina e fiquei observando o trabalho do mecânico. Mais uma vez me deslumbrei com a quantidade de conhecimento transformado em tecnologia posta em função para resolver o problema daquela roda empenada. E ficava claro para mim, a cada ação das máquinas e ferramentas, como, ao longo dos anos, pequenas descobertas, inovações,  aperfeiçoamentos, em diferentes campos, foram se encadeando e juntando para tornar mais eficaz e precisa a máquina de hoje.
E isto apenas ali, naquele mínimo campo da tecnologia. O que dizer então das complexas e sofisticadas máquinas que movem a civilização contemporânea?!
É, nós, poetas, não servimos pra nada...
Será mesmo verdade que não servimos pra nada? Seria se tudo o que importasse na vida das pessoas fossem as questões materiais e práticas. Mas não é assim. Os técnicos, os engenheiros, os operários, os inventores, os empresários, para seguirem adiante, necessitam de um outro tipo de combustível que se não extrai do petróleo nem dos átomos: necessitam dar sentido à sua vida, ao seu trabalho; necessitam de poesia, de sonho, de algum tipo de transcendência ou simplesmente de alegria.
A época moderna, particularmente o século XX, caracterizou-se pela confiança na ciência, na técnica, na objetividade e na razão; a contrapartida foi a subestimação dos valores ditos espirituais, particularmente os mais ligados à emoção e à intuição. Se é certo que há uma arte do século XX e que essa arte ganhou peso e visibilidade na sociedade contemporânea, é impossível ignorar o quanto influiu nela a intenção de substituir o poético pelo científico, o intuitivo pelo racional, e como isso contribuiu para a crise a que ela chegou em nossos dias. Pode parecer contraditório o que digo, quando se considera que um dos traços importantes da arte contemporânea é a irracionalidade e o nonsense. A contradição é aparente: os polos opostos se atraem.
Mas o meu propósito aqui não é discutir os problemas da arte contemporânea e sim afirmar a importância crescente da arte – em suas diferentes manifestações – para o homem de hoje. Mais uma vez posso parecer contraditório, pois logo acudirá ao leitor uma indagação pertinente: a arte, em nossos dias, não está sendo cada vez mais substituída pelo entretenimento? não é a música de má qualidade  que prepondera? não é o pop star de duvidoso talento que ocupa o maior espaço na mídia? e isso não se estende também ao próprio campo da literatura?
Tudo isso em grande parte é verdade. E esta é precisamente a razão por que, mais que nunca, devemos valorizar a melhor música, o melhor cinema, o melhor teatro, a melhor pintura, a melhor poesia. Certamente não seremos a maioria, não mudaremos os índices de audiência nem inverteremos a lista dos mais vendidos. O que importa é manter viva a chama da verdadeira arte, que afirma e preserva o que de melhor o homem inventou para tornar-se humano.

25/11/2016

LIÇÃO DE VIDA

Durante meu segundo mês na escola de enfermagem, nosso professor nos deu um questionário.

Eu era bom aluno e respondi rápido todas as questões até chegar a última que era:

"Qual o primeiro nome da mulher que faz a limpeza da escola?"

Sinceramente, isso parecia uma piada.> Eu já tinha visto a tal mulher várias vezes. Ela era alta, cabelo escuro, lá pelos seus 50 anos, mas como eu ia saber o primeiro nome dela?

E entreguei meu teste deixando essa questão em branco e um pouco antes da aula terminar, um aluno perguntou se a última pergunta do teste ia contar na nota.

É claro!", respondeu o professor.

Na sua carreira, você encontrará muitas pessoas.

Toda s têm seu grau de importância. Elas merecem sua atenção mesmo que seja com um simples sorriso ou um simples "alô".

Nunca mais esqueci essa lição e também acabei aprendendo que o primeiro nome dela era Dorothy.

15/07/2016

PROFESSORES E PROFESSAUROS



Palestra de Celso Antunes.






A sua auto-biografia

Embora eu considere absolutamente desnecessário uma apresentação, fui informado que o protocolo exigia a leitura de um currículo e por isso, me apresento: Meu nome é Celso, nasci em São Paulo e na infância comi terra, botei lombrigas, achei e quebrei cupim para a galinhada, inventei mistura de sal, fermento e açúcar, esfreguei bicarbonato nos dentes e grudei esparadrapo para estreitar as orelhas. 
Roubei guaraná, escondi bilhete em garrafa, brinquei com fogo e molhei a cama, corri e escondi-me fingindo-me bandido, empinei papagaio, joguei bolinha, enterrei garrafa com casca de abacaxi, fui picado de marimbondo, amarrei lata em rabo de gato, tive sarampo, caxumba, fui internado com crupe, corri de vaca braba, espiei no buraco da fechadura. 
Fugi de casa por meia hora e voltei, apanhei e fui dormir com fome.

Construí caçambas com lata de óleo, caí de árvore, quebrei o braço, comi manga e tomei leite e fiquei com dor de barriga, contei estrelas e choquei para-choque de caminhão. 
Joguei bola na rua, colei na escola, fui campeão de botão, roubei beijo envergonhado, segurei vela. 
Aprendi a ler, chupei cana e assobiei ao mesmo tempo, fumei cigarro de chuchu, assisti seriado do Tarzan, ri muito com Carlitos, armei arapucas, fiz coisa feia e fiquei com medo da confissão, acordei com pijama molhado e escondi embaixo do colchão, tive espinhas no rosto e calos na mão, tirei cavalinho da chuva, fui carteiro e virei homem.

11/06/2016

APRENDER A PESQUISAR


No início dos anos 1990, uma coleção de enciclopédias tinha o mesmo valor educacional que um microcomputador tem hoje em dia – eram ótimas ferramentas de pesquisa para os estudantes. 

Para quem tem menos de 20 anos, pode parecer incompreensível.
Como uma coleção de livros de capa dura, grandes, pesados e difíceis de manusear, pode ser tão eficaz quanto os programas de busca da internet, que nos colocam a dois cliques de qualquer resposta?

A geração que nasceu depois do surgimento da internet tem a sua disposição o maior volume de informação da história. 
Mas novos estudos sugerem que a intimidade dos jovens com o mundo digital não garante que eles sejam capazes de encontrar o que precisam na internet.
Uma pesquisa da Universidade de Charleston, nos Estados Unidos, mostra que a geração digital não sabe pesquisar. 
Acostumados com a comodidade oferecida por mecanismos de busca como o Google, eles confiam demais na informação fácil oferecida por esses serviços.
O estudo mostrou que os estudantes usam sempre os primeiros resultados que aparecem após uma busca, sem se importar com sua procedência. 

No estudo, os pesquisadores pediram a um grupo de universitários que respondesse a algumas perguntas com a ajuda da internet. 
Mas fizeram uma pegadinha: fontes de informação que não apareceriam no topo da lista de respostas do Google foram apresentadas propositalmente como primeira opção.
Os estudantes nem notaram a troca: usaram as primeiras respostas acriticamente. 
Outro estudo, realizado pela Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, pedia que 102 adolescentes que estavam se formando no ensino médio buscassem termos diversos em sites de pesquisa on-line. 

Todos trouxeram os resultados, mas nenhum soube informar quais eram os sites usados para obter as respostas: se veio da internet, já estava bom.

A conclusão dos cientistas é que os estudantes de hoje confiam demais nas máquinas.
 Em princípio, esse comportamento faz sentido, porque os sistemas de buscas oferecem conteúdos cada vez mais relevantes.
 Mas gera uma efeito colateral preocupante: a perda da capacidade crítica. 

“Precisamos ensinar os alunos a avaliar a credibilidade das fontes on-line antes de confiar nelas cegamente”, diz Bing Pan, pesquisador da Universidade de Charleston.
 “As escolas deveriam ajudar os estudantes a julgar melhor as informações.”
PARA LER TODA A MATÉRIA REVISTA ÉPOCA







09/06/2016

VISÃO DE GANDHI DA EDUCAÇÃO




Ler e escrever, por si mesmos, não são educação. 

Eu iniciaria a educação da criança, portanto, ensinando-lhe um trabalho manual útil, e colocando-a em grau de produzir desde o momento em que começa sua educação. 
Desse modo todas as escolas poderiam tornar-se auto-suficientes, com a condição de o Estado comprar os manufaturados.
Acredito que um tal sistema educativo permitira o mais alto desenvolvimento da mente e da alma. 
É preciso, porém, que o trabalho manual não seja ensinado apenas mecanicamente, como se faz hoje, mas cientificamente, isto é, a criança deveria saber o porquê e o como de cada operação.
Os olhos, os ouvidos e a língua vêm antes da mão. 
Ler vem antes de escrever e desenhar antes de traçar as letras do alfabeto.
Se seguirmos este método, a compreensão das crianças terá oportunidade de se desenvolver melhor do que quando é freada iniciando a instrução pelo alfabeto.

(Gandhi)

18/05/2016

ZOOLÓGICO ENSINA MAIS QUE SALA DE AULA


Pesquisa de universidade britânica foi feita com 3 mil alunos.

Visitas despertam a atenção dos garotos para a conservação de espécies. MATÉRIA G1



Uma pesquisa da Universidade de Warmick, na Grã-Bretanha, mostra que visitar o zoológico pode ser melhor para crianças aprenderem ciência e serem educadas sobre conservação da natureza do que o material e as aulas dentro da escola.
Do total, cerca de 53% delas foram afetadas pela visita e melhoraram o conhecimento científico sobre as espécies, ameaçadas ou não de extinção. 
A preocupação com a conservação dos animais também aumentou, já que 39% das crianças afirmaram ter desenvolvido uma consciência sobre o problema após a ida ao zoológico.O estudo foi conduzido com mais de 3 mil crianças com idade entre 7 e 14 anos. Os alunos foram perguntados sobre o quanto conheciam animais, habitats e conservação da natureza. O questionário foi passado aos garotos antes e depois de idas ao Zoológico de Londres.

Segundo os pesquisadores, estar no zoológico desperta mais a vontade de aprender das crianças do que o conteúdo de sala de aula. E o aproveitamento era ainda maior quando as visitas eram guiadas por especialistas.

ALGO QUE TODO MUNDO JÁ SABE...MAS QUEM COLOCA EM PRÁTICA?


Freinet pelos idos de 1956, desenvolveu a  pedagogia do bom senso, pela qual a aprendizagem resulta de uma relação dialética entre ação e pensamento, ou teoria e prática. Criou a aula passeio.





MAPA DO ZOOLÓGICO  DE SÃO PAULO






15/04/2016

A ESCOLA DE ATENAS DE RAFAEL

A Escola de Atenas é uma das mais famosas pinturas do renascentista italiano Rafael e representa a Academia de Platão. 
Foi pintada entre 1509 e 1510 na Stanza della Segnatura sob encomenda do Vaticano. 
A obra é um afresco em que aparecem ao centro Platão e Aristóteles. 
Platão segura o Timeu e aponta para o alto, sendo assim identificado com o ideal, o mundo inteligível. Aristóteles segura a Ética e tem a mão na horizontal, representando o terreste, o mundo sensível.
 Em A Escola de Atenas, Rafael pintou os maiores estudiosos antigos como se fossem amigos que discutiam e desenvolviam as formas de pensar e de refletir a filosofia em si.
Fonte Wikipedia 





Os números indicam as personalidades que Rafael se inspirou
 para pintar os filósofos gregos.


1: Zenão de Cítio ou Zenão de Eléia
2: Epicuro
3: Frederico II, duque de Mântua e Montferrat
4: Empédocles
5: Averroes
6: Pitágoras
7: Alcibíades ou Alexandre, o Grande 
8: Antístenes 
9: Hipátia 
10: Ésquines
11: Parménides
12: Sócrates
13: Heráclito
14: Platão segurando o Timeu (Leonardo da Vinci).
15:Aristóteles segurando Ética a Nicômaco
16: Diógenes de Sínope 
17: Plotino
18: Euclides ou Arquimedes acompanhado de estudantes
 (Bramante
19: Estrabão ouZoroastro
20: Ptolomeu
21: Protogenes 

22/01/2016

ESTÍMULOS

Photo Credit: Morguefile
Vivemos tempos frenéticos. A cada década que passa o modo de vida de dez anos atrás parece ficar mais distante: dez anos viraram trinta, e logo teremos a sensação de ter se passado cinquenta anos a cada cinco. E o mundo infantil foi atingido em cheio por essas mudanças: já não se educa (ou brinca, alimenta, veste, entretém, cuida, consola, protege, ampara e satisfaz) crianças como antigamente:
  • O iPad, por exemplo, já é companheiro imprescindível nas refeições de milhares de crianças;
  • Em muitas casas a(s) TV(s) fica(m) ligada(s) o tempo todo na programação infantil – naqueles canais cujo volume aumenta consideravelmente durante os comerciais – mesmo quando elas estão comendo com o iPad  à mesa;
  • Muitas e muitas crianças têm atividades extra curriculares pelo menos três vezes por semana, algumas somam mais de 50 horas semanais de atividades, entre escola, cursos, esportes e reforços escolares.
  • Existe em quase todas as casas uma profusão de brinquedos, aparelhos, recursos e pessoas disponíveis o tempo todo para garantir que a criança “aprenda coisas” e não “morra de tédio”;
  • As pré escolas têm o mesmo método de ensino dos cursos pré vestibulares. 
Tudo está sendo feito para que, no final, possamos ocupar, aproveitar, espremer, sugar, potencializar, otimizar e, finalmente, capitalizar todo o tempo disponível para impor às nossas crianças uma preparação praticamente militar, visando seu “sucesso”. O ar nas casas onde essa preocupação é latente chega a ser denso, tamanha a pressão que as crianças sofrem por desenvolver uma boa competitividade.
Porém, o excesso de estímulos sonoros, visuais, físicos e informativos impedem que a criança organize seus pensamentos e atitudes, de verdade: fica tudo muito confuso e nebuloso, e as próprias informações se misturam fazendo com que a criança mal saiba descrever o que acabou de ouvir, ver ou fazer.
Além disso, aptidões que devem ser estimuladas estão sendo deixadas de lado:
  • crianças não sabem conversar
  • não olham nos olhos de seus interlocutores
  • não conseguem focar em uma brincadeira ou atividade de cada vez (na verdade a maioria sequer sabe brincar sem a orientação de um adulto!)
  • não conseguem ler um livro, por menor que seja.
  • não aceitam regras
  • não sabem o que é autoridade.
  • pior e principalmente: não sabem esperar.
Todas essas qualidades são fundamentais na construção de um ser humano íntegroindependente e pleno, e devem ser aprendidas em casa, em suas rotinas.
Precisamos pausar. Parar e olhar em volta. Colocar a mão na consciência, tirá-la um pouco da carteira, do telefone e do volante: estamos enlouquecendo nossas crianças, e as estamos impedindo de entender e saber lidar com seus tempos, seus desejos, suas qualidades e talentos. Estamos roubando o tempo precioso que nossos filhos tanto precisam para processar a quantidade enorme de informações e estímulos que nós e o mundo estamos lhes dando.
Calma, gente. Muita calma. Não corramos para cima da criança com um iPad na mão a cada vez que ela reclama ou achamos que ela está sofrendo de “tédio”. Não obriguemos a babá a ter um repertório mágico, que nem mesmo palhaços profissionais têm, para manter a criança entretida o tempo todo. O “tédio” nada mais é que a oportunidade de estarmos em contato conosco, de estimular o pensamento, a fantasia e a concentração.
Um lindo texto da cientista que virou mãe que postei na minha página recentemente fala disso com até mais propriedade que eu, embora ela creia que o mundo tá sofrendo de adultismo enquanto eu acredito fundamentalmente que sofremos de infantolatria. Mesmo discordante, sugiro a leitura, essa moça pensa a fundo antes de sair postando. E sugiro também que leiamos todos, pais ou não, “O Ócio Criativo” de Domenico di Masi, para que entendamos a importância do uso consciente do nosso tempo.
E já que resvalamos o assunto para a leitura: nossas crianças não leem mais. Muitos livros infantis estão disponíveis para tablets e iPads, cuja resposta é imediata ao menor estímulo e descaracteriza a principal função do livro: parar para ler, para fazer a mente respirar, aprender a juntar uma palavra com outra, paulatinamente formando frases e sentenças, e, finalmente, concluir um raciocínio ou uma estória.
Cerquem suas crianças de livros e leiam com elas, por amor. Deixem que se esparramem em almofadas e façam sua imaginação voar. O clima da casa também agradece,
Amor e gratidão

20/05/2015

CLÓVIS DE BARROS - SOMOS TODOS CANALHAS

Danilo Gentili entrevista o professor e filósofo Clóvis de Barros Filho, que fala sobre "Canalhice".

19/04/2015

O QUE É EDUCAÇÃO

O QUE HÁ DE MAIS PROFUNDO NESTE ARTIGO, SEM DÚVIDA É A CARTA DOS ÍNDIOS AOS AMERICANOS, EM NEGRITO.


CARLOS RODRIGUES BRANDÃO
EDUCAÇÃO? EDUCAÇÕES: APRENDER COM O ÍNDIO
Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é a coragem minha. Buriti quer todo o azul, e não se aparta de sua água - carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.
João Guimarães Rosa / Grande Sertão: Veredas

Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. Com uma ou com várias: educação ? Educações. E já que pelo menos por isso sempre achamos que temos alguma coisa a dizer sobre a educação que nos invade a vida, por que não começar a pensar sobre ela com o que uns índios uma vez escreveram ?

Há muitos anos nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os índios das Seis Nações. Ora, como as promessas e os símbolos da educação sempre foram muito adequados a momentos solenes como aquele, logo depois os seus governantes mandaram cartas aos índios para que enviassem alguns de seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes responderam agradecendo e recusando. A carta acabou conhecida porque alguns anos mais tarde Benjamin Franklin adotou o costume de divulgá-la aqui e ali. Eis o trecho que nos interessa:

"... Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração.
Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa....
Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome.
Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros.
Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens."


De tudo o que se discute hoje sobre a educação, algumas das questões entre as mais importantes estão escritas nesta carta de índios. Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor profissional não é o seu único praticante.
Em mundos diversos a educação existe diferente: em pequenas sociedades tribais de povos caçadores, agricultores ou pastores nômades; em sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados; em mundos sociais sem classes, de classes, com este ou aquele tipo de conflito entre as suas classes; em tipos de sociedades e culturas sem Estado, com um Estado em formação ou com ele consolidado entre e sobre as pessoas.
Existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo; ela existe em cada povo, ou entre povos que se encontram. Existe entre povos que submetem e dominam outros povos, usando a educação como um recurso a mais de sua dominância. Da família à comunidade, a educação existe difusa em todos os mundos sociais, entre as incontáveis práticas dos mistérios do aprender; primeiro sem classes de alunos, sem livros e sem professores especialistas; mais adiante com escolas, salas, professores e métodos pedagógicos.
A educação pode existir livre e, entre todos, pode ser uma das maneiras que as pessoas criam para tornar comum, como saber, como idéia, como crença, aquilo que é comunitário como bem, como trabalho ou como vida. Ela pode existir imposta por um sistema centralizado de poder, que usa o saber e o controle sobre o saber como armas que reforçam a desigualdade entre os homens, na divisão dos bens, do trabalho, dos direitos e dos símbolos.
A educação é, como outras, uma fração do modo de vida dos grupos sociais que a criam e recriam, entre tantas outras invenções de sua cultura, em sua sociedade. Formas de educação que produzem e praticam, para que elas reproduzam, entre todos os que ensinam-e-aprendem, o saber que atravessa as palavras da tribo, os códigos sociais de conduta, as regras do trabalho, os segredos da arte ou da religião, do artesanato ou da tecnologia que qualquer povo precisa para reinventar, todos os dias, a vida do grupo e a de cada um de seus sujeitos, através de trocas sem fim com a natureza e entre os homens, trocas que existem dentro do mundo social onde a própria educação habita, e desde onde ajuda a explicar - às vezes a ocultar, às vezes a inculcar - de geração em geração, a necessidade da existência de sua ordem.
Por isso mesmo - e os índios sabiam - a educação do colonizador, que contém o saber de seu modo de vida e ajuda a confirmar a aparente legalidade de seus atos de domínio, na verdade não serve para ser a educação do colonizado. Não serve e existe contra uma educação que ele, não obstante dominado, também possui como um dos seus recursos, em seu mundo, dentro de sua cultura.
Assim, quando são necessários guerreiros ou burocratas, a educação é um dos meios de que os homens lançam mão para criar guerreiros ou burocratas. Ela ajuda a pensar tipos de homens. Mais do que isso, ela ajuda a criá-los, através de passar de uns para os outros o saber que os constitui e legitima. Mais ainda, a educação participa do processo de produção de crenças e idéias, de qualificações e especialidades que envolvem as trocas de símbolos, bens e poderes que, em conjunto, constróem tipos de sociedades. E esta é a sua força.
No entanto, pensando às vezes que age por si próprio, livre e em nome de todos, o educador imagina que serve ao saber e a quem ensina mas, na verdade, ele pode estar servindo a quem o constituiu professor, a fim de usá-lo, e ao seu trabalho, para os usos escusos que ocultam também na educação - nas suas agências, suas práticas e nas idéias que ela professa - interesses políticos impostos sobre ela e, através de seu exercício, à sociedade que habita. E esta é a sua fraqueza.
Aqui e ali será preciso voltar a estas idéias, e elas podem ser como que um roteiro daqui para a frente. A Educação existe no imaginário das pessoas e na ideologia dos grupos sociais e, ali, sempre se espera, de dentro, ou sempre se diz para fora, que a sua missão e transformar sujeitos e mundos em alguma coisa melhor, de acordo com as imagens que se tem de uns e outros: "... e deles faremos homens". Mas, na prática, a mesma educação que ensina pode deseducar, e pode correr o risco de fazer o contrário do que pensa que faz, ou do que inventa que pode fazer: "... eles eram, portanto, totalmente inúteis"

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