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30/03/2016

TUDO, EM POUCAS PALAVRAS

Albert Camus (pronuncia-se ‘camí’) diz que em Atenas havia um templo dedicado à velhice.
A esse templo os pais levavam os seus filhos...


30 DE MARÇO, DIA MUNDIAL DA JUVENTUDE.

09/11/2015

PROGRAMAS

Um programa é uma organização de saberes numa determinada sequência.
Quem determinou que esses são os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem prescrita?
Que uso fazem as crianças desses saberes na sua vida de cada dia?
As crianças escolheriam esses saberes?
Os programas servem igualmente para crianças que vivem nas praias de Alagoas, nas favelas das cidades, nas montanhas de Minas, nas florestas da Amazônia, nas cidadezinhas do interior?

Os programas são dados em unidades de tempo chamadas "aulas".
As aulas têm horários definidos.
Ao final, toca-se uma campainha. A criança tem de parar de pensar o que estava pensando e passar a pensar o que o programa diz que deve ser pensado naquele tempo. O pensamento obedece às ordens das campainhas?
Por que é necessário que todas as crianças pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo?
As crianças são todas iguais?
O objetivo da escola é fazer com que as crianças sejam todas iguais?

A questão é fazer as perguntas fundamentais: por que é assim?
Para que serve isso?
Poderia ser de outra forma?

RUBEM ALVES

07/11/2015

ENSINAR MÚSICA, COMO ENSINAR TUDO


"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas.
Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música.
Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas.
Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical.
A experiência da beleza tem de vir antes".
Rubem Alves

12/08/2015

A PIPA E A FLOR


"Fiquei triste vendo aquela pipa enroscada no falho da árvore. Rasgada, ela girava que girava, ao vento, como se quisesse escapulir. Mas não adiantava. Você já viu aqueles bichinhos de asas, quando eles caem em teias de aranhas? Era daquele jeito... Tive dó. Pipa não foi feita para acabar assim. Pipa foi feita para voar. E é tão bom quando a gente as vê, lá no alto... Eu sempre tive vontade de ser uma pipa..." (Rubem Alves) 





 Um menino confeccionou uma pipa. Ele estava tão feliz, que desenhou nela um sorriso. Todos os dias, ele empinava a pipa alegremente. A pipa também se sentia feliz e, lá do alto, observava a paisagem e se divertia com as outras pipas que também voavam. 

Um dia, durante o seu vôo, a pipa viu lá embaixo uma flor e ficou encantada, não com a beleza da flor, porque ela já havia visto outras mais belas, mas alguma coisa nos olhos da flor a havia enfeitiçado. 



Resolveu, então, romper a linha que a prendia à mão do menino e dá-la para a flor segurar. Quanta felicidade ocorreu depois! 

A flor segurava a linha, a pipa voava; na volta, contava para a flor tudo o que vira. 

Acontece que a flor começou a ficar com inveja e ciúme da pipa. 




Invejar é ficar infeliz com as coisas que os outros têm e nós não temos; ter ciúme é sofrer por perceber a felicidade do outro quando a gente não está perto. 

A flor, por causa desses dois sentimentos, começou a pensar: se a pipa me amasse mesmo, não ficaria tão feliz longe de mim... 

Quando a pipa voltava de seu vôo, a flor não mais se mostrava feliz, estava sempre amargurada, querendo saber com quem a pipa estivera se divertindo. 




A partir daí, a flor começou a encurtar a linha, não permitindo à pipa voar alto. Foi encurtando a linha, até que a pipa só podia mesmo sobrevoar a flor. 

Esta história, segundo conta o autor, ainda não terminou e está acontecendo em algum lugar neste exato momento. 

Há três finais possíveis para ela: 

1 - A pipa, cansada pela atitude da flor, resolveu romper a linha e procurar uma mão menos egoísta. 

2 - A pipa, mesmo triste com a atitude da flor, decidiu ficar, mas nunca mais sorriu. 

3 - A flor, na verdade, era um ser encantado. O encantamento quebraria no dia em que ela visse a felicidade da pipa e não sentisse inveja nem ciúme. 

Isso aconteceu num belo dia de sol: a flor se transformou numa linda borboleta e as duas voaram juntas 


* Rubem Alves, “A pipa e a flor”, 2003, Editora Loyola 

14/03/2015

PARA QUEM NÃO ENTENDE POESIA

Rubem Alves é sempre gostoso de se ler.
Quando o ouvimos em Poços de Caldas, ficamos muito felizes.
Meu filosofo predileto a minha frente, falando coisas que eu já tinha lido. 
Repetitivo...
Não...!
Quanto mais leio, quanto mais o ouço, mais compreendo, mais apreendo. 
Rubem Alves, diz coisas que eu gosto de ouvir...
E para quem não entende poesia...



PARA LER POESIA

RUBEM ALVES

Não basta saber ler para ler poesia.
Ler poesia é uma arte.
Exige que o leitor se coloque numa posição especial de alma.
O segredo da poesia está na música da leitura.
Mais do que uma arte: é um ato de bruxedo.
O leitor invoca um mistério que se encontra nos interstícios das palavras do poeta. Essas palavras estão dentro dele mesmo.
O poema faz-me ouvir um poema que está dentro de mim.
Esse poema que está dentro de mim é um pedaço do mim.
Muitas pessoas têm hábitos de ler como quem come sem sentir o sabor.
Tudo é igual, não há pausas, tudo com pressa. 
Romain Rolland se referia a um sentimento que ele não tinha mas não podia descrever, pelo que lhe deu o nome de “sentimento oceânico”.
Você já experimentou ficar boiando no mar?
O corpo todo solto, sem fazer nada, nenhum movimento, subindo e descendo ao sabor das ondas?
Pois é assim que se lê poesia: flutuando ao sabor das palavras, sem pressa, em voz alta, poesia é música.
São falas do corpo.
Por favor: não tente entender.
Música não é para ser entendida.
É para ser ouvida.
Poesia não é para ser entendida.
É para ser lida em voz alta.
...Poetas são fotógrafos.
Eles fotografam aquilo que os olhos não vêem.

18/01/2015

FRASE DA EDUCAÇÃO XXI

"Ensinar é um exercício de imortalidade.

De alguma forma continuamos a viver

naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo

pela magia da nossa palavra.

O professor, assim, não morre jamais..."

(Rubem Alves)

15/01/2015

RUBEM ALVES - O QUE É SER PROFESSOR 1

Nesta entrevista Rubem Alves fala de sua vida e o que é ser professor.
Adélia Prado me ensina pedagogia. Diz ela: "Não quero faca nem queijo; quero é fome". O comer não começa com o queijo. 
O comer começa na fome de comer queijo. 
Se não tenho fome é inútil ter queijo. 
Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo...

26/09/2014

A MÚSICA É UM PÁSSARO EM VÔO

Você gosta da Pétrouchka, de Stravinski? E do “Quarteto para o fim dos tempos”, que Messiaen escreveu num campo de concentração? E Da “Sertaneja”, de Brazílio Itiberê, precursor da música nacional erudita? E da Sinfonia da Lamentação de Górecki, compositor polonês? E do Rudepoema, que Villa-Lobos dedicou a Arthur Rubinstein? E do Officium Defunctorum, canto gregoriano com o sax de Jan Garbareck? Fiz essas perguntas por pura maldade, de propósito... Escolhi umas peças que poucos conhecem. É possível que você nunca as tenha ouvido. Assim provavelmente sua resposta vai ser: “Nunca as ouvi. Não posso gostar daquilo que nunca ouvi.” Ao dar essa resposta você enunciou a regra fundamental para se gostar de música: “O prazer vem do ouvir. Quem nunca ouviu não pode gostar”.

Mas não é qualquer ouvir. É um ouvir especial. Contei-lhes das minhas noites com meu filho pequeno, deitado no meu colo, pedindo-me que colocasse no toca-discos a “Pequena Serenata” de Mozart. Pediu porque gostava dela. Gostava dela porque a tinha ouvido antes. Imaginem agora que eu, amante da música, me propusesse um programa de educação musical para o meu filho, com hora e lugar marcados. “Meu filho, são nove horas da manhã. Hora de ouvir música. Deixe os seus brinquedos! Hoje vamos ouvir a “Pequena Serenata.” É possível que ele me obedecesse e ouvisse. Mas estaria dizendo por dentro: “Droga, logo agora que o brinquedo estava tão bom...” A música é um pássaro em vôo. É no seu vôo que ela é bela. Não é possível prendê-la para aprendê-la. Música engaiolada, em sala de aula, com hora marcada, é coisa feia, até mesmo a Pequena Serenata de Mozart. Para o meu filho a Pequena Serenata era mais do que ela: era a cena, a sala na penumbra, o meu colo, a estória que eu iria contar.

Aprende-se o prazer da música da mesma forma como a criança aprende o prazer de falar! Como eu gostava de falar quando era pequeno! Uma vez meu irmão me pagou uma pratinha de dois mil reis para ficar calado por dez minutos. Fiquei. Mas senti-me tão ofendido que transcorridos os dez minutos recusei-me a falar. O meu silêncio causou grande aflição nos circunstantes que me pagaram outra pratinha de dois mil réis para falar de novo...

Como é que se aprende a falar? Não sei. O fato é que quem ensina a falar não sabe que está ensinando e quem aprende não sabe que está aprendendo. Há coisas que só se aprende se não se sabe que está aprendendo e que só se ensina quando não se percebe que está ensinando. A língua se aprende da mesma forma como se respira. É parte da vida. Imaginem agora que houvesse um ensino científico da língua: aula dos substantivos, aula dos adjetivos, aula dos verbos, aula de sintaxe, hora da verificação, hora das reprovações... Nunca aprenderíamos a falar. O mesmo vale para a música. Há de se aprender a música da mesma forma como se respira, da mesma forma como se aprende a falar, sem lugar certo, sem hora certa. Não há hora certa para se ouvir o sopro dos ventos, o canto dos pássaros, o farfalhar das folhas nas árvores, o murmurar dos regatos, o barulho da chuva. A música são objetos sonoros que criamos como companheiros da música da natureza, para acrescentar-lhes uma beleza diferente, saída de dentro de nós. É preciso viver no meio dela como vivemos no meio dos ventos, dos pássaros, das árvores, dos regatos, da chuva...

Tenho um amigo que é apaixonado por Vivaldi. Ele mora sozinho. Quando em casa ele escuta Vivaldi o dia inteiro. Uma senhora cuida da sua casa. Um dia ele se preparava para sair com o seu carro semi-novo quando o marido da dita senhora chegou com seu carro velho: uma Brasília. Aconteceu, entretanto, que a bateria do semi-novo pifou. O marido da empregada lhe ofereceu carona no seu carro velho. Já dentro da Brasília o marido lhe perguntou: “Posso colocar um CD?” “Mas é claro”, ele respondeu, temeroso da música que teria de ouvir. E o que se ouviu foi... Vivaldi! Ante seu rosto espantado sua auxiliar explicou: “Acho tão bonitas as músicas que o senhor escuta. Fui ver o nome: Vivaldi. Agora também nós ouvimos Vivaldi...” Meu amigo ensinou sem saber que estava ensinando...

A música nos retira dos nossos pequenos mundos e nos faz viajar por mundos maravilhosos. Isso desperta em nós as potências eróticas dos nossos ouvidos. Os ouvidos passam a fazer amor com a música em inumeráveis posições... O Canto Gregoriano, a música barroca, a música clássica, a romântica, a impressionista, o jazz, a música sertaneja: todas essas são formas diferentes de gozar auditivamente. Pena é que haja pessoas que gozam de um jeito só. É como se, diante da enorme variedade de pratos em um buffet, a pessoa comesse sempre a mesma coisa: arroz, feijão, batata frita e bife...

A educação da nossa sensibilidade musical deveria ser um dos objetivos da educação. Os conhecimentos da ciência são importantes. Eles nos dão poder. Mas eles não mudam o jeito de ser das pessoas. A música, ao contrário, não dá poder algum. Mas ela é capaz de penetrar na alma e de comover o mundo interior da sensibilidade onde mora a bondade. Afinal, essa não deveria ser a primeira tarefa da educação, produzir a bondade?

01/09/2014

O YPÊ



Olho o ipê florido.
Paro encantado com seu amarelo.
Ipê, para mim, é símbolo de amarelo.
Aquele ipê me faz voltar à minha infância em Minas,
Agosto,
Pastos secos, frios, céu azul, bolas de amarelo.
Não quero fazer nada com o ipê.
Só contemplar.

Rubem Alves

25/07/2014

DIA NACIONAL DO ESCRITOR

O 25 de julho foi definido como DIA NACIONAL DO ESCRITOR por decreto governamental, em 1960, após o sucesso do I Festival do Escritor Brasileiro, organizado naquele ano pela União Brasileira de Escritores, por iniciativa de seu presidente, João Peregrino Júnior, e de seu vice-presidente, Jorge Amado.


Escritor é o artista que se expressa através da arte da escrita, ou, tradicionalmente falando, da Literatura. 
É autor de livros publicados, embora existam escritores sem livros publicados (chamados, por alguns, de amadores). 
No Brasil, podem-se citar muitos exemplos de escritores considerados célebres, como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo e Ana Maria Machado, tal como em Portugal, onde surgiram nomes como José Saramago, Lídia Jorge, Eça de Queiroz e Miguel Torga, entre muitos outros que, mesmo não sendo tão reconhecidos mundialmente, deixaram um importante legado no panorama da Literatura lusófona.

Ninguém melhor que Rubem Alves para falar sobre a magia de escrever. 






16/08/2013

FILOSOFIA - FILO+SOPHIA = AMOR À SABEDORIA


DIA DO FILÓSOFO


Minhas reverências ao 
meu filósofo preferido, Rubem Alves.


Para entendermos um pouco sobre o trabalho dos filósofos devemos saber sobre o que é a filosofia. 
A filosofia surgiu na Grécia Antiga como uma atividade especial do homem sábio, o amigo do saber (filo + sophia = amor à sabedoria). 
Desde então inúmeras foram as tentativas de definir exatamente o que procura e o que faz um filósofo. 
Todos reconhecem a sua importância e a imensa utilidade, são, porém, imprecisos e divergem em relação a determinar qual a sua verdadeira ciência. 

Aristóteles, discípulo de Platão e fundador do Liceu, uma escola voltada para o saber e a ciência que ele instalou em Atenas no século IV a.C., fez uma das mais claras exposições sobre as qualidades da filosofia.


O filósofo
A principal característica que Aristóteles vê num filósofo é que ele não é um especialista. O sophós, o sábio, é um conhecedor de todas as coisas sem possuir uma ciência específica. 
O seu olhar derrama-se pelo mundo, sua curiosidade insaciável o faz investigar tanto os mistérios do cosmo e da physis, a natureza, como as que dizem respeito ao homem e à sociedade. 
No fundo, o filósofo é um desvelador, alguém que afasta o véu daquilo que está a encobrir os nossos olhos e procura mostrar os objetos na sua forma e posição original, agindo como alguém que encontra uma estátua jogada no fundo do mar coberta de musgo e algas, e gradativamente, afastando-as uma a uma, vem a revelar-nos a sua bela forma e esplendor.

Fonte: Google

05/08/2013

O PROFESSOR DE ESPANTOS

Até que ponto estamos dispostos a abandonar tudo o que conquistamos para viver novas experiências?
 E até onde conseguimos ir quando o caminho exige priorizar coisas tão esquecidas no mundo atual como a beleza, a poesia, a arte e a capacidade de aprender com olhos de criança?

Para o escritor, educador, teólogo e psicanalista Rubem Alves, transpor esses limites é um desafio que se impôs desde a infância e que ele sempre aceitou, sem medos.

No documentário "Rubem Alves -- O professor de espantos", conhecemos um pouco da vida deste educador: seus sonhos, ideias e realizações e também as interrogações diante do envelhecer. Considerado um dos maiores pensadores contemporâneos da educação no Brasil, o "jardineiro" Rubem Alves semeia ideias tão "revolucionárias" que acabam, por um lado, provocando a crítica e o desprezo de muitos setores da intelectualidade brasileira e, por outro, conquistando a cumplicidade de todos os que são apaixonados pela Educação. "Rubem Alves, o professor de espantos" tem direção de Dulce Queiroz e compõe mais um episódio da série Memórias, da TV Câmara.


02/02/2013

RUBEM ALVES - O PROFESSOR DE ESPANTOS

Até que ponto estamos dispostos a abandonar tudo o que conquistamos para viver novas experiências? E até onde conseguimos ir quando o caminho exige priorizar coisas tão esquecidas no mundo atual como a beleza, a poesia, a arte e a capacidade de aprender com olhos de criança?

Para o escritor, educador, teólogo e psicanalista Rubem Alves, transpor esses limites é um desafio que se impôs desde a infância e que ele sempre aceitou, sem medos.

No documentário "Rubem Alves -- O professor de espantos", conhecemos um pouco da vida deste educador: seus sonhos, ideias e realizações e também as interrogações diante do envelhecer. Considerado um dos maiores pensadores contemporâneos da educação no Brasil, o "jardineiro" Rubem Alves semeia ideias tão "revolucionárias" que acabam, por um lado, provocando a crítica e o desprezo de muitos setores da intelectualidade brasileira e, por outro, conquistando a cumplicidade de todos os que são apaixonados pela Educação. "Rubem Alves, o professor de espantos" tem direção de Dulce Queiroz e compõe mais um episódio da série Memórias, da TV Câmara.

31/01/2013

ORGULHO


 Orgulho 

Era de manhã. 


Caminhava por uma praça de La Paz com um grupo de amigos. Mulheres índias haviam montado suas pequenas bancas de comercio e ofereciam os seus produtos. 

Uma delas vendia laranjas. 

Seu estoque não ultrapassava vinte laranjas. Pensamos em proporcionar-lhe uma grande alegria. 

Compraríamos todas as laranjas. 

"Não posso vender todas as laranjas agora", ela disse. Posso vender no máximo dez." 

Por quer, perguntamos surpresos. 

“Se eu vender todas as minhas laranjas agora, o que é que vou fazer no resto do meu dia”? 

Ela não estava lá para vender Iaranjas. 

Estava Iá para ter o orgulho de ser proprietária de um estabelecimento comercial. 

Se vendesse todas as suas laranjas, ela ficaria sem um negócio e com isso seria roubada da sua dignidade.

Rubem Alves, do livro – Ostra feliz não faz pérola”

14/11/2012

DIA NACIONAL DA ALFABETIZAÇÃO

Hoje é o dia nacional da alfabetização.

Segundo a Constituição Brasileira, no artigo 205:

“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

Não há desenvolvimento econômico e social sem educação: pesquisas mostram que a alfabetização constitui motor para a expansão econômica.

Existem diversos métodos para alfabetizar crianças, jovens e adultos. No Brasil, os mais utilizados são o método global e métodos tradicionais, como o alfabético-silábico e o fônico.
Por outro lado, muitos alfabetizadores brasileiros, das redes pública ou privada, preferem a teoria do construtivismo como base para a alfabetização.

Qual o melhor caminho para ensinar a ler e escrever?

Escolher um ou outro é uma opção cujo grau de dificuldade aumenta principalmente quando se depara com a enorme diversidade socioeconômica e cultural de um país como o Brasil.


Com as constantes mudanças na sociedade, com o fenômeno da globalização, das tecnologias da informação e da comunicação, os currículos escolares necessitam de revisão e atualização para refletirem as necessidades reais dos estudantes, de forma a viabilizar um aprendizado adequado a cada realidade.


Nada melhor do que degustar as palavras de meu filósofo predileto...Rubem Alves

O prazer da leitura


Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de “alfabeto“. “Alfabeto“ é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que “abecedário“. A palavra “alfabeto“ é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: “alfa“ e “beta“.
E “abecedário“, com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: “a“, “b“, “c“ e “d“. Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que “abecedarizar“, palavra inexistente, pudesse ser sinônima de “alfabetizar“...

“Alfabetizar“, palavra aparentemente inocente, contém uma teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto.
Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras...

E assim era. Lembro-me da criançada repetindo em coro, sob a regência da professora: “be a ba; be e be; be i bi; be o bo; be u bu“...
Estou olhando para um cartão postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redação: uma menina cacheada, deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se lê “fa“, “fe“, “fi“, “fo“, “fu“... (Centro de Referência do Professor, Centro de Memória, Praça da Liberdade, Belo Horizonte, MG.)

Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música deveria se chamar “dorremizar“: aprender o dó, o ré, o mi...
Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem repetindo as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse...

Todo mundo sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega o nenezinho e o embala, cantando uma canção de ninar.
E o nenezinho entende a canção. O que o nenezinho ouve é a música, e não cada nota, separadamente!
E a evidência da sua compreensão está no fato de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas! Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: minha mãe as tocava ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça.
Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque queria tocar piano.
A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade – e nunca com o conhecimento das partes.

Isso é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro.
Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a estória. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer.
“Erotizada“ – sim, erotizada! – pelas delícias da leitura ouvida, a criança se volta para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.

No primeiro momento as delícias do texto se encontram na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no ato de ler para os seus alunos, é o “seio bom“, o mediador que liga o aluno ao prazer do texto.
Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas me lembro com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos.
A professor lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos extasiados. Ninguém falava. Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi.
E o bom era que não havia provas sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa de leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro...

Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, lendo para o filho... Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afetiva da criança.
Na ausência da mãe ou do pai a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras.
E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas daquele mundo maravilhoso!
Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem: continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afetuosa.
Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: “Por favor, me ensine! Eu quero poder entrar no livro por conta própria...“

Toda aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontecerá. Há aquele velho ditado: “É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber“.
Traduzido pela Adélia Prado: “Não quero faca nem queijo. Quero é fome“. Metáfora para o professor: cozinheiro, Babette, que serve o aperitivo para que a criança tenha fome e deseje comer o texto...

Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa questão acidentalmente, sem que a tivesse procurado.
Ele me disse que havia lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu também amava aquele poema.
Aí ele começou a lê-lo. Estremeci. O poema – aquele poema que eu amava – estava horrível na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas.
Mas alguma coisa estava errada! A música estava errada!
Todo texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a música... Percebi, então, que todo texto literário se assemelha à música.
Uma sonata de Mozart, por exemplo. A sua “letra“ está gravada no papel: as notas. Mas assim, escrita no papel, a sonata não existe como experiência estética.
Está morta. É preciso que um intérprete dê vida às notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (sua interpretação do concerto n. 3 de Rachmaninoff me convenceu da superioridade das mulheres...) as toca: seus dedos deslizam leves, rápidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum tropeção: estamos possuídos pela beleza.
A mesma partitura, as mesmas notas, nas mãos de um pianeiro: o toque é duro, sem leveza, tropeções, hesitações, esbarros, erros: é o horror, o desejo que o fim chegue logo.

Todo texto literário é uma partitura musical.
As palavras são as notas.
Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece.

E o texto se apossa do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se ele luta com as palavras, se ele não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos que ela termine logo.
Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê.
Por isso eu acho que deveria ser estabelecida em nossas escolas a prática de “concertos de leitura“. Se há concertos de música erudita, jazz e MPB – por que não concertos de leitura?
Ouvindo, os alunos experimentarão os prazeres do ler. E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de ser picado pela sua beleza é impossível esquecer. Leitura é droga perigosa: vicia...
Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é deles.
Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos - gramática, usos da partícula “se“, dígrafos, encontros consonantais, análise sintática –que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e não a sua erótica viva.
Ler é fazer amor com as palavras.
E essa transa literária se inicia antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à beleza.

E a missão do professor? Mestre do kama-sutra da leitura...


APERITIVOS

1. “Analfabeta não é a pessoa que não sabe ler. É a pessoa que, sabendo ler, não gosta de ler.“ (Quem foi que disse isso? Acho que foi o Mário Quintana).

2. A menininha de 9 anos me explicou como as crianças na sua escola aprendiam a ler: “Aqui na Escola da Ponte não aprendemos letras e silabas. Só aprendemos totalidades...“

3. Os compositores colocam em suas partituras indicações para orientar o intérprete: lento, presto, adagio, alegretto, forte, piano, ralentando. Os escritores deveriam fazer o mesmo com seus textos. Há textos que devem ser lidos lentamente, expressivamente, tristemente. Outros que exigem leveza, rapidez, riso. O leitor experiente não precisa dessas indicações. Mas elas poderiam ajudar os principiantes.

4. “Mais valem dois marimbondos voando que um na mão“ (Almanak do Aluá).

5. Graciliano Ramos relata que, quando menino, na escola lhe ensinaram um ditado: “Fale pouco e bem e ter-te-ão por alguém“. Ele repetia o ditado mas ficava com uma dúvida: “Quem será esse ‘Tertião’?“

(Correio Popular, Caderno C, 19/07/2001.)


12/11/2012

OLHAR E MATERNAGEM


O que é um olhar? 
O olhar não se encontra nos olhos. 
Observação de Sartre: “O olhar do Outro esconde seus olhos”. 
Observação de Cecília Meireles: “O sentido está guardado no rosto com que te miro”. 
Eu não te miro com os meus olhos. 
Eu te miro com o meu rosto. 
Os olhos são peças anatômicas assustadoras em si mesmas. Olhos não têm sentido. 
Eles nada dizem. Mas o rosto com que te miro guarda um segredo. Não miro com os olhos. 
Miro com o rosto. É o rosto que desvenda o mistério do olhar. 
O rosto da mãe revela à criança o segredo do seu olhar. Isso é verdade até para os animais: o olhar de um cão…

Roland Barthes é uma excepção. 
Ele não tinha medo de pensar seus próprios pensamentos, mesmo que não pudessem ser cientificamente comprovados. 
Às vezes, a exigência de provas é uma manifestação de burrice. Acho que se ele tivesse que ele tivesse que resumir o que pensava sobre educação numa única frase, ele diria: “No princípio é o olhar…”. A educação acontece na subtil trama entre os olhares da mãe e do filho. Pois é aí que se revela o desejo.
Vejam esta deliciosa descrição da mãe ensinando o filhinho a andar:

Quando a criança aprende a andar, a mãe não discorre, nem demonstra: ela não ensina a andar, ela não representa (não anda diante da criança): ela sustenta, encoraja, chama (recua e chama): ela incita e cerca: a criança pede a mãe e a mãe deseja o andar da criança.
Van Gogh tem uma delicada tela que representa esta cena: o pai, jardineiro, interrompeu seu trabalho; está ajoelhado no chão, com os braços estendidos para criança que chega, conduzida pela mãe. 
O rosto do pai não pode ser visto. 
Mas é certo que ele está sorrindo. 
O rosto-olhar do pai está dizendo para o filhinho: “Eu quero que você ande”. É o desejo de que a criança ande, desejo que assume forma sensível no rosto da mãe ou do pai, que incita a criança no aprendizado dessa coisa que não pode ser ensinada nem por exemplos, nem por palavras.
Os educadores acadêmicos dirão que isso é piegas, romântico – não é científico. 
É verdade. O que eu disse não pode ser dito cientificamente. 
Só poeticamente.
acontece que, como disse Bernardo Soares, o fato é que somos incuravelmente românticos! 
Assim, sendo a educação uma coisa romântica (não consigo pensar uma criança sem ternura), eu lhe digo: “Professor: trate de prestar atenção no seu olhar. 
Ele é mais importante que seus planos de aula. 
O olhar tem o poder para despertar e para intimidar a inteligência. 
O olhar é um poder bruxo!”.

Rubem Alves

05/09/2012

A MÁQUINA DE FAZER SALSICHA

RUBEM ALVES - DO PORTAL APRENDIZ

Um homem resolveu dedicar-se à produção de salsichas. Aconselhando-se com técnicos e cientistas, foi informado de que o que havia de mais moderno para tal fim era uma máquina importada de fazer salsichas. Ele não titubeou: comprou a dita máquina porque queria ser um produtor de salsichas bem sucedido.

A máquina era assim: numa extremidade, havia um grande funil onde a carne deveria ser colocada. Apertava-se um botão e a máquina começava a funcionar. Na outra extremidade, fim do processo, saíam as salsichas gordas e vermelhas.

Mas não basta que a máquina produza salsichas. 
É preciso que a produção seja comercialmente vantajosa. E como se avalia isso? Comparando-se os quilos de carne colocados no funil inicial com os quilos de salsicha que saem na extremidade final da máquina. Se, na entrada, se colocam cem quilos de carne e saem 95 quilos de salsichas, a máquina é ótima. Mas se só saírem dez quilos de salsichas, a máquina não presta.

Não estou procurando sócios para uma aventura econômica. 
Minha coisa é a educação. E pensei que a educação poderia ser avaliada por um exame parecido com a máquina de salsichas -que comparasse os "quilos" de saberes que as escolas colocam nos olhos, ouvidos e memória da "máquina" chamada "aluno" com o que "sobra" ao final.


As escolas colocaram muita coisa dentro do meu funil, nos 17 anos que as frequentei. Quatro anos no curso primário, um no curso de admissão, quatro no ginásio, três no curso científico e cinco no curso superior.

Multipliquei o número de meses, pelo número de dias, pelo número de horas, pelo número de anos: cheguei a 16.830 -o número de horas que passei assentado em carteiras ouvindo a fala dos professores.

O exame -um tipo de Enem- seria assim: Primeiro: o programa para o exame seria constituído de tudo o que se pretendeu ensinar nesses 17 anos, do primeiro ao último ano. O que foi colocado no funil.

Segundo: os alunos não assinarão os seus nomes porque não são eles que estão sendo avaliados, mas o desempenho da máquina, isto é, do sistema escolar.

Terceiro: não haverá "cursinhos" preparatórios para tais exames. Será proibido também recordar a matéria. Guarde isso: o aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho. O objetivo do exame será avaliar o que sobrou.

Eu me sairia muito mal. Não me lembro das classificações das rochas. Lembro-me dos nomes "dolomitas" e "piroclásticas", mas não sei o que significam. Esqueci-me do "crivo de Erastóstenes". Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se encontra a serra da Mata da Corda.

Também me esqueci das dinastias dos faraós. Não sei a lei de Avogadro.
Sei pouquíssimo de análise sintática. Acho que, dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar dentro de mim, só sobrariam uns 10%.

Você depositaria suas economias mensalmente num fundo de investimento, por 17 anos, se você soubesse que depois desses 17 anos receberia só 10% do que você depositou?

Alguns concluirão que a culpa é dos professores. Outros, que a culpa é dos alunos. Não creio que a culpa seja dos professores ou dos alunos.Acho mesmo é que a culpa é da carne que se põe na máquina: ela está estragada. As salsichas cheiram mal.

O nariz as reprova. O jeito é vomitá-las, isto é, esquecê-las. Concluo: a performance das escolas melhorará se a carne estragada for substituída por uma carne que produza salsichas apetitosas...

09/06/2012

EDUCADORES: INTERPRETES DE SONHOS


O nascimento do pensamento

é igual ao nascimento de uma criança:

tudo começa com um ato de amor.

Uma semente há de ser depositada no ventre vazio.

E a semente do pensamento é o sonho.

Por isso os educadores ,antes de serem especialistas

em ferramentas do saber, deviam ser especialistas em amor:

intérpretes de sonhos.


Rubem Alves

VÁRIOS CURSO SOBRE EDUCAÇÃO